domingo, 13 de janeiro de 2013

Alexandre O'Neill (1924-1986)

LEGO

Está tudo conformado
ao triste proprietário.
Mecânicas ovelhas,
na erva de plástico,
têm pastor de pilhas
e cão pré-fabricado.
Flores marginam esse
às peças-soltas prado.
Eléctricas abelhas,
obreiras sem contrato,
daquele herbário extraem
um mel supermercado.
A malhada, no estábulo,
quase manga de alpaca
(é A VACA, sabias?),
dá leite engarrafado.
No céu (para colorir)
a nuvem, pontual,
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
Já tudo afeiçoado
ao bom proprietário
(ervas, bichos, moral)
ele conta com os seus
e espera sempre em Deus.

(«- Deste corda ao pardal?»)

Alexandre O'Neill, Poesias Completas, Assírio & Alvim, 2000, p. 343

So how did we get into this mess?

Matsuo Bashô (1644-1694)


A lua da montanha
ilumina também
os ladrões de flores

Se hei-de morrer
no caminho,
que seja no campo dos trevos

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Jiro Taniguchi, «O homem que caminha» (1990-1991)


Béla Tarr, «O Cavalo de Turim» (2012)




O ponto de partida do filme é aquela anedota nietszcheana que se ouve no início. De onde é que ela vem? Ou por outra, como é que ela gera a inspiração para um filme? 

 Na verdade, a ideia germinava desde 1985. Nesse ano assisti a uma conferência de Laszlo Krasznahorkai [escritor, e argumentista de Tarr] em que ele contava a história. E no fim, alguém perguntava: "e o que aconteceu ao cavalo?". Entre nós, repetimos muitas vezes a pergunta ao longo dos anos: "o que aconteceu ao cavalo?" [risos].

 O cavalo é o primeiro protagonista. Aquele plano-sequência de abertura é espantoso, coloca logo o filme sob o signo do esforço físico, do cansaço... 

Verdade. Conhece aquele livro que fala da insustentável leveza do ser... O meu filme é o contrário, fala do insustentável peso do ser...
(...)

 Os actores vêm de outros filmes seus. Mas o cavalo [Ricsi], como fez o casting do cavalo?

 Fomos a um mercado de animais e descobrimos este, que tinha ar de não querer trabalhar. Podia ser o cavalo da história de Nietzsche. Percebemos que era o nosso cavalo.
 (...)

 Que citação do Godard é que tem ali na parede, em húngaro?

 "Van Gogh inventou o amarelo quando queria pintar e já não havia sol".


excerto de uma entrevista a Béla Tarr por L. M. Oliveira, in «ípsilon», 15 Junho 2012