segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Agustina Bessa-Luís


Os jovens tinham que crescer como juncos, directos e leves, naquele denso arvoredo de velhos, egoístas, pesados de pequenas infâmias circulares, como as que envolvem o cálculo da vida em comum e as renúncias que a idade vai talhando, executando na alma uma escultura cheia de vazios, como as de Moore. Gigantesca estátua de solidão, esburacada aqui e ali, como se nela faltasse a gratidão ou o artigo máximo de espaço vital, que é o amor.

Agustina Bessa-Luís, O Mosteiro, Guimarães, 1995, p. 105

Natureza morta VIII

Shana and Robert ParkeHarrison

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Liu Zong-yuán (775-819)

HISTÓRIA DO PLANTADOR DE ÁRVORES GUÓ CAMELO

Era o Guó Camelo. Não se sabia qual o seu nome original. Como teve raquitismo, passou a caminhar de tal modo curvado que parecia um camelo. Era essa a razão por que todos os seus conterrâneos o chamavam Camelo. Ao ser assim chamado, porém, ele comentava: «É isso mesmo, assenta-me bem.» E nunca mais mencionara o seu nome original, passando a chamar-se a si próprio Guó Camelo.
A sua aldeia era Feng Lè-xiang, a oeste de Cháng'an. A sua actividade era plantar árvores e, em Cháng'an, todas as famílias nobres e ricas desejavam ter árvores por ele plantadas e os vendedores de fruta disputavam entre si para o contratar.
Ainda que sofressem transplantações as árvores do Camelo não morriam. Pelo contrário, cresciam cada vez mais e tornavam-se cada vez mais frondosas, dando fruta mais cedo e em maior quantidade. E, muito embora os outros plantadores o espreitassem com inveja e o imitassem, eram incapazes de o igualar.
Um dia, alguém lhe perguntou as causas desta situação e ele respondeu: «Não é o Camelo quem pode dar vida às árvores nem quem as pode multiplicar. Tudo quanto pode fazer é agir de acordo com a natureza das árvores e satisfazê-las segundo as suas necessidades.
«E quanto a plantar árvores, alguns conselhos: o melhor é deixar as raízes expandirem-se à vontade, Também é melhor tornar a terra bem plana, sem a substituir por outra e calcá-la até ficar compacta. Assim fazendo, uma vez plantadas, é desnecessário voltar a tocar-lhes e a preocuparmo-nos com o seu crescimento. Ao transplantar, há que tratar das raízes como se fossem nossos filhos e, depois, abandoná-las para sempre. Só deste modo a sua natureza será cumprida e o seu carácter levado a bom termo.
«Como se vê, tudo quanto faço é não as contrariar e deixá-las crescer à vontade. (...)
O inquiridor perguntou: «Será possível transpor os teus métodos para a governação?»
O Camelo respondeu: «Apenas sei plantar árvores. A governação não me compete. Todavia, vivo na aldeia e vejo que os governantes gostam de dar muitas e minuciosas ordens. Parece que se preocupam muito com o povo mas acabam por provocar desastres. De manhã à noite, vêem-se os seus funcionários a gritar: «Os oficiais ordenam que se despachem com o cultivo da terra. Aconselham-vos a plantar e a apressar as colheitas. Cozam já os casulos da seda, enrolem os novelos, teçam e fiem o mais depressa possível. E cuidem bem dos vossos bebés e alimentem as galinhas e os leitões como deve ser!» E tocam os tambores para reunir e fazem soar as taramelas para convocar os aldeões.
«Nós, os humildes, mesmo que interrompêssemos o jantar e o pequeno-almoço para os atender, nem assim arranjaríamos tempo para atender às suas inúmeras solicitações. Deste modo, como pode a nossa vida e a dos nossos descendentes ter paz e prosperar? Pelo contrário, andamos doentes e enfraquecidos. (...)
O inquiridor comentou, satisfeito: « Ora que bom! Perguntei como fazer crescer árvores e consegui saber como fazer crescer os homens!»

O Rosto do Vento Leste, Assírio & Alvim, 1993, pp. 57-61


Mandrágora: uma planta "humana" e "mágica", lendária e com história

Manuscrito de Dioscórides
por Renata Silva


A mandrágora, planta que tem várias espécies (...), pertence à família botânica Solanaceae, é conhecida na história de várias civilizações por diversos nomes. A sua nomeclatura foi evoluindo ao longo dos anos, até que o nome científico que conhecemos hoje – Mandragora officinarum L. – foi dado pelo botânico sueco Carl von Linné (em Português, Carlos Lineu), que criou a chamada nomenclatura binomial.
O nome mais abrangente desta planta, de acordo com o trabalho de Carla Lixa, provém do inglês, “mandrake”, ou seja, por um lado homem, devido à raiz que parece ter uma forma humana, por outro o “drake”, derivado de dragão, que faz alusão aos poderes mágicos.
Mandrágora e os efeitos alucinógenios
Acreditava-se que a mandrágora tinha poderes mágicos, tendo sido associada muitas vezes a rituais de bruxaria, e que servia como tratamento, por exemplo, para a infertilidade. Ao longo de vários séculos, autores clássicos, como Sócrates, Demóstenes, Macróbio e Teodoreto, escreveram sobre as propriedades soníferas e anestésicas desta planta.
A mandrágora foi considerada por várias civilizações como tendo propriedades medicinais, narcóticas e afrodisíacas, segundo nos conta Carla Lixa. A doutoranda revela ainda que hoje em dia existem vários estudos que fundamentam a presença de elementos químicos  alcaloídes  que concedem propriedades alucinogénias à mandragora officinarum L.  De acordo com Rubim Almeida, docente de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, consultado pelo Ciência 2.0, todas as mandrágoras "contêm alcaloídes (atropina, escopolamina, etc) que provocam delírios e outros efeitos hipnóticos e depressivos que podem causar muitos outros sintomas como bradicardia, delírios, vómitos e morte".
“De certo modo a mandrágora começa a surgir como uma planta associada a tratamentos. Antigamente, transpunha-se a forma da planta para aquilo que ela tratava, se tinha a forma de rim, tratava os rins, como a mandrágora era a planta que tinha uma raiz de forma humana, então achavam que curava tudo”, explica Carla Lixa. 
“A planta lançava um grito que enlouquecia aquele que o ouvisse”
Teofrasto, filósofo grego que escreveu o primeiro tratado sobre plantas, contou, no livro "Enquiry Into Plants II" a história da lenda das mandrágoras que passamos a citar: “O herborista só o poderia fazer à noite. Primeiro, teria de se inclinar em direção do sol poente e homenagear as divindades infernais, isto é, as forças telúricas. O produtor deveria desenhar três círculos ao redor da planta com a sua espada de ferro virgem. Então, de frente para o oeste para evitar feitiços, ele deveria cortar porções das raízes secundárias. Em seguida, não deveria proceder pessoalmente à colheita pois, no momento em que era arrancada, a planta lançava um grito que matava ou enlouquecia aquele que o ouvisse. Por isso, depois de ter cuidadosamente tapado os ouvidos com cera, o herborista amarrava um cão à planta e atirava-lhe um pedaço de carne um pouco além do seu alcance. O cão corria e caía morto. Mas a mandrágora estava arrancada. Uma colheita tão perigosa merecia uma grande retribuição. Mas que importância tinha, já que a mandrágora reembolsava largamente seu comprador. Bastava fechá-la num cofre para que ela dobrasse o número de moedas que ele continha”.

Embora a mandragora officinarum L. tenha sido descrita como originária da Península Ibérica, "os últimos estudos taxonómicos apontam que na Península Ibérica todas as plantas de mandrágora pertencem à espécie Mandragora autummalis" [mandrágora mediterrânica], realça Rubim Almeida. Existe, assim, uma única espécie de mandrágora em Portugal.
Atualmente, apesar de estas plantas terem sido muito usadas a nível medicinal, não há conhecimento, segundo o docente, de nenhum medicamento feito a partir delas. 


Pedro Caldeira Cabral, «La Batalla» & «Ai flores de verde pino»

D. Dinis I (?-1325), o Rei-Agricultor/Trovador

- Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo;
aquel que mentiu do que pôs conmigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

- Vós me perguntades polo voss'amigo
e eu bem vos digo que é san'e vivo.
Ai Dues, e u é?

- E eu bem vos digo que é san'e vivo
e será vosco ant'o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

- E eu bem vos digo que é viv'e sano
e será vosc[o] ant'o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Jordi Savall, «Folias Criollas»