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| Pelas Sombras |
domingo, 26 de maio de 2013
Ossip Mandelstam (1891-1938)
O corpo me é dado - e com que fim,
Meu corpo único, tão de mim?
Pela alegria chã de respirar,
Silenciosa, a quem devo louvar?
Sou jardineiro e sou flor - cativo
Na prisão do mundo sozinho não vivo.
E já nos vidros da eternidade
Cai meu calor, meu sopro respirado.
Nela se grava um desenho para sempre,
Irreconhecível de tão recente.
Escorra do momento a água turva -
O desenho amado não esbate à chuva.
Meu corpo único, tão de mim?
Pela alegria chã de respirar,
Silenciosa, a quem devo louvar?
Sou jardineiro e sou flor - cativo
Na prisão do mundo sozinho não vivo.
E já nos vidros da eternidade
Cai meu calor, meu sopro respirado.
Nela se grava um desenho para sempre,
Irreconhecível de tão recente.
Escorra do momento a água turva -
O desenho amado não esbate à chuva.
Ossip Mandelstam, Guarda Minha Fala Para Sempre, Assírio & Alvim, 1996, p. 107
quinta-feira, 23 de maio de 2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
Marguerite Yourcenar (1903-1987)
A TRISTEZA DE CORNÉLIUS BERG
Trabalhou durante toda a Primavera nessa cidadezinha clara e asseada, onde o puseram a pintar lambris fingidos na parede da igreja. À tardinha, acabada a tarefa, não se recusava a entrar em casa daquele velhote lentamente embrutecido pela rotina de uma existência sem percalços, que vivia só, entregue aos tratos mimados de uma criada, e que nada entendia das coisas da arte. Empurrava a frágil cancela de madeira pintada; no jardinzito à beira do canal, o amador de túlipas esperava-o no meio das flores. Cornélius não tinha a menor paixão por aqueles bolbos inestimáveis, mas era hábil em distinguir todos os pormenores das formas, todos os cambiantes e matizes, e sabia que o velho Síndico só o convidava para saber a sua opinião acerca de alguma variedade nova. Ninguém poderia designar por palavras a infinita diversidade dos brancos, das rosas e dos lilases. Esguios, rígidos, os cálices patrícios brotavam do solo gordo e negro: só um odor molhado, que subia da terra, pairava sobre aquelas florações sem perfume. O velho Síndico pousava um vaso sobre os joelhos e, tomando o caule entre os dedos, como pela cintura, dava a contemplar, mudo e quedo, aquela delicada maravilha. Trocavam poucas palavras: Cornélius Berg dava o seu parecer meneando a cabeça.
Nesse dia, o Síndico sentia-se feliz com uma proeza mais rara do que as outras: a flor, branca e violácea, quase tinha estrias de um lírio. Considerou-a voltando-se em todos os sentidos e, pousando-a aos seus pés:
- Deus - disse ele - é um grande pintor.
Cornélius Berg não respondeu. E o plácido velhote continuou:
- Deus é o pintor do universo.
Cornélius Berg fitava alternadamente a flor e o canal. Aquele espelho baço e plúmbeo apenas reflectia canteiros, muros de tijolos e algum estendal, mas o velho vagabundo cansado contemplava vagamente nele toda a sua vida. Revia certos traços fisionómicos que avistara nas suas longas viagens, o Oriente sórdido, o Sul desbragado, expressões de avareza, de estupidez ou de ferocidade registadas sob tão brandos céus, os tugúrios miseráveis, as doenças venéreas, as brigas à facada à porta das tabernas, o rosto seco dos penhoristas e o belo corpo abundante do seu modelo, Frederica Gerritsdochter, deitado na mesa de anatomia da escola de medicina de Friburgo. Depois, ocorreu-lhe outra lembrança. Em Constantinopla, onde pintara alguns retratos de Sultões para o embaixador das Províncias Unidas, tivera o ensejo de admirar um outro jardim de túlipas, orgulho e alegria de um paxá que confiava no pintor para imortalizar, na sua breve perfeição, o seu harém floral. Encerradas num pátio de mármore, dir-se-ia que as túlipas congregadas palpitavam e sussurravam no brilho ou na macieza das cores. Na bacia de um repuxo cantava um pássaro; os bicos dos ciprestes rompiam o céu palidamente azul. Mas o escravo que por ordem do seu senhor mostrava ao forasteiro aquelas maravilhas era zarolho, e sobre a vista que perdera há pouco amontoavam-se as moscas. Cornélius Berg suspirou longamente. Então, tirando os óculos:
- Deus é o pintor do universo.
E, com amargura, em voz baixa:
- Pena é, senhor Síndico, que Deus não se tenha limitado a pintar paisagens.
Trabalhou durante toda a Primavera nessa cidadezinha clara e asseada, onde o puseram a pintar lambris fingidos na parede da igreja. À tardinha, acabada a tarefa, não se recusava a entrar em casa daquele velhote lentamente embrutecido pela rotina de uma existência sem percalços, que vivia só, entregue aos tratos mimados de uma criada, e que nada entendia das coisas da arte. Empurrava a frágil cancela de madeira pintada; no jardinzito à beira do canal, o amador de túlipas esperava-o no meio das flores. Cornélius não tinha a menor paixão por aqueles bolbos inestimáveis, mas era hábil em distinguir todos os pormenores das formas, todos os cambiantes e matizes, e sabia que o velho Síndico só o convidava para saber a sua opinião acerca de alguma variedade nova. Ninguém poderia designar por palavras a infinita diversidade dos brancos, das rosas e dos lilases. Esguios, rígidos, os cálices patrícios brotavam do solo gordo e negro: só um odor molhado, que subia da terra, pairava sobre aquelas florações sem perfume. O velho Síndico pousava um vaso sobre os joelhos e, tomando o caule entre os dedos, como pela cintura, dava a contemplar, mudo e quedo, aquela delicada maravilha. Trocavam poucas palavras: Cornélius Berg dava o seu parecer meneando a cabeça.
Nesse dia, o Síndico sentia-se feliz com uma proeza mais rara do que as outras: a flor, branca e violácea, quase tinha estrias de um lírio. Considerou-a voltando-se em todos os sentidos e, pousando-a aos seus pés:
- Deus - disse ele - é um grande pintor.
Cornélius Berg não respondeu. E o plácido velhote continuou:
- Deus é o pintor do universo.
Cornélius Berg fitava alternadamente a flor e o canal. Aquele espelho baço e plúmbeo apenas reflectia canteiros, muros de tijolos e algum estendal, mas o velho vagabundo cansado contemplava vagamente nele toda a sua vida. Revia certos traços fisionómicos que avistara nas suas longas viagens, o Oriente sórdido, o Sul desbragado, expressões de avareza, de estupidez ou de ferocidade registadas sob tão brandos céus, os tugúrios miseráveis, as doenças venéreas, as brigas à facada à porta das tabernas, o rosto seco dos penhoristas e o belo corpo abundante do seu modelo, Frederica Gerritsdochter, deitado na mesa de anatomia da escola de medicina de Friburgo. Depois, ocorreu-lhe outra lembrança. Em Constantinopla, onde pintara alguns retratos de Sultões para o embaixador das Províncias Unidas, tivera o ensejo de admirar um outro jardim de túlipas, orgulho e alegria de um paxá que confiava no pintor para imortalizar, na sua breve perfeição, o seu harém floral. Encerradas num pátio de mármore, dir-se-ia que as túlipas congregadas palpitavam e sussurravam no brilho ou na macieza das cores. Na bacia de um repuxo cantava um pássaro; os bicos dos ciprestes rompiam o céu palidamente azul. Mas o escravo que por ordem do seu senhor mostrava ao forasteiro aquelas maravilhas era zarolho, e sobre a vista que perdera há pouco amontoavam-se as moscas. Cornélius Berg suspirou longamente. Então, tirando os óculos:
- Deus é o pintor do universo.
E, com amargura, em voz baixa:
- Pena é, senhor Síndico, que Deus não se tenha limitado a pintar paisagens.
Marguerite Yourcenar, Contos Orientais, Dom Quixote, 1986, pp. 137-139
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Alberto Carneiro
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| Arte Vida/Vida Arte - Revelações de Energias e Movimentos da Matéria 2013, Serralves de 19/04/2013 a 24/06/2013 |
domingo, 19 de maio de 2013
Uma história de imperfeição
Uma história contada por Okazura Kakuzo no livro The Book of Tea, exemplificativa de uma estética que valoriza as imperfeições do mundo natural, subjacente à transformação introduzida por Sen No Rikyu (1520-91) na cerimónia do chá:
" Rikyu observava o seu filho, enquanto este limpava o pequeno jardim que antecedia a casa de chá. Quando ele deu a tarefa por terminada, disse-lhe que não esteva suficientemente limpo e que seria preciso tentar novamente. Depois de uma hora a esforçar-se, o rapaz dirigiu-se ao pai:
«Pai, não há mais nada para ser feito. Os degraus foram esfregados três vezes, as lanternas de pedra e as árvores foram salpicadas com água, as ervas e os musgos estão brilhantes. Nem uma folha eu deixei no chão.»
Ao que respondeu o pai:
«Criança tonta. Não é essa a maneira como deve ser limpo um caminho no jardim!»
E, avançando, abanou uma das árvores, espalhando ao longo do caminho algumas folhas douradas e vermelhas..."
" Rikyu observava o seu filho, enquanto este limpava o pequeno jardim que antecedia a casa de chá. Quando ele deu a tarefa por terminada, disse-lhe que não esteva suficientemente limpo e que seria preciso tentar novamente. Depois de uma hora a esforçar-se, o rapaz dirigiu-se ao pai:
«Pai, não há mais nada para ser feito. Os degraus foram esfregados três vezes, as lanternas de pedra e as árvores foram salpicadas com água, as ervas e os musgos estão brilhantes. Nem uma folha eu deixei no chão.»
Ao que respondeu o pai:
«Criança tonta. Não é essa a maneira como deve ser limpo um caminho no jardim!»
E, avançando, abanou uma das árvores, espalhando ao longo do caminho algumas folhas douradas e vermelhas..."
Adaptado de lolipop-banzai.blogspot.pt
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