quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Abraham Gragera


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.

in arquivodecabeceira.blogspot.pt [Trad. Inês Dias]

domingo, 5 de janeiro de 2014

Jeff Rubin


Agustina Bessa-Luís

Uma floresta em Heidelberg não é o que pensam. Não se parece com uma floresta, mas com alguma coisa de extinto  e que só pertence aos nossos sonhos. Eu imagino que na planície castelhana, onde viviam as tartarugas gigantes antes do aquecimento da terra, havia aquele silêncio que fazia perceptível a queda duma gota de chuva no ar limpo e onde ondulavam as folhas mortas. Levavam uma infinidade de tempo a cair no chão e eram manobradas pelo vento como as velas dum barco.
A casa de Dominga, um chalet grande e rasgado de muitas janelas, encontrava-se dentro dum pequeno parque sempre húmido e prestes a cair em decomposição. Muitas das casas da floresta estavam encostadas à ravina onde apareciam as corças com ar que lhes ficara do tempo das caçadas, um ar delirante de medo que lhes fazia tremer as orelhas. Mas a casa de Dominga era mais do tipo heráldico, com um portão de ferro que, devido à ferrugem, nunca se fechava.

Agustina Bessa-Luís, Dominga, Guimarães, 2000, pp. 10-11 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Jorge Luis Borges (1899-1986)

Adam Cast Forth

Houve um Jardim ou tal Jardim foi sonho?
Na vaga luz me tenho perguntado
Quase como um consolo, se o passado
De que este Adão, já mísero, foi dono,
Não foi mais do que mágica impostura
Desse Deus que sonhei. É impreciso
Na memória o brilhante Paraíso,
Mas eu sei que ele existe e que perdura,
Embora não para mim. A dura terra
É o meu castigo e a incestuosa guerra
De Cains e Abéis e sua cria.
E, no entanto, é muito ter amado,
Haver sido feliz e ter tocado
O vivente Jardim, mesmo um só dia.

Jorge Luis Borges, Obras Completas 1952-1972, Editorial Teorema, 1998, p. 312